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Não há palavras vãs

by anonymous

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CARLOS ARANHA

 

caranha@terra.com.br

 

Publicado no "Correio da Paraíba",

edição de sábado, 24 de agosto de 2013

 

SABER QUE É SÁBADO

 

                Quase que meu quarto sábado de agosto, o de hoje, seria - aproveitando o título de um filme brasileiro - um sábado despedaçado. Na tarde de ontem, uma amiga e um amigo de profissão evitaram previamente o despedaçamento. Nem tanto “vivo pra cachorro”, como cantou Belchior, mas vívido vivo com amores vividos.

Dizemos todos, aparentemente mortais ou mesmo imortais, que o sábado por vezes aguça uma tendência à depressão. Que o sábado seria constatação de que a semana termina sem acrescentar nada de novo ao sistema solar. Sei lá... O sábado pode ser, quando dinheiro há, para fazer compras; quando não há, para observá-las. Ou não sair de casa, como farei hoje e amanhã.

                Pode ser sábado de praia (Tambaú, Cabo Branco, Manaíra, Bessa, Formosa, Iracema, Boa Viagem, Copacabana, Ipanema, Iracema?). Pode ser sábado de reunião política, de birita, de futebol, de ir ao cemitério depositar flores, visitar alguém no hospital, jogar cartas, ler, reparar a quantas anda o jardim, viajar, dar seis ou sete interurbanos praqueles que a gente não encontra há mais de seis meses ou um ano, assistir “Flores raras” ou o novo “Percy Jackson”. De Sabadinho Bom.

                O sábado é multi. Imensamente opcional. Quando assim mesmo vem uma depressão, o jeito talvez seja escutar James Taylor ou Carole King cantando “You’ve got a friend”, bela canção que fala coisas assim: “Quando você está por baixo e perturbado, e precisa de algum tipo de amor, e nada vai indo em ordem, feche seus olhos e pense em mim, que subitamente estarei aí para fazer brilhar essa escuridão. Basta você chamar meu nome, pois você sabe onde sempre estou. Irei correndo ver você de novo. Seja inverno, primavera, verão, tudo que você tem a fazer é me chamar; eu estarei aí, pois você tem um amigo”...

É assim mesmo. Bom é saber que é sábado e há tempo de tudo recomeçar, refazer, fazer ou começar.

Assim Vinícius de Moraes termina seu poema “O dia da criação”: “Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo / E para não ficar com as vastas mãos abanando / Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança / Possivelmente, isto é, muito provavelmente / Porque era sábado”. Não há palavras vãs.

 

@ CARLOS ARANHA é jornalista e escritor