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Missa pela profª Antonieta Aranha

by anonymous

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CARLOS ARANHA

 

caranha@terra.com.br

 

Publicado na edição do "Correio da Paraíba"

de 1º de maio de 2013

 

DEZ ANOS

 

Às 3 e 15 da tarde de 2 de maio de 2003. Um maio despedaçado entre esperanças e temores de que ela não voltaria ao lar. Na redação, trabalhava com o vai-e-vem em meu cérebro da imagem que nunca aceitei, mas que não conseguia apagar desde a última visita no apartamento do Hospital Santa Paula. A face de 90 anos cheia de rugas, o tubo de oxigênio, o soro medicamentoso aplicado na veia tão machucada. O aparelho ligado com o angustiante som dos bips indicando que o coração da minha mãe estava batendo.

O telefone ao meu lado tocou, na redação. Atendi. Inconfundível, a voz do meu saudoso irmão, Marcus: “É Carlos?”. “Sim, Marcus”. O verbo por ele usado atravessou todo o meu tempo-espaço, da infância na praia de Tambaú à maturidade durante o trabalho no “Correio”: “Acabou”. Silêncio longo e nada mais foi dito, com o choro baixo e cortado de meu irmão. Lembro que desligamos o telefone ao mesmo tempo. Dizer, comentar, combinar, mais o que?

Os dez anos me farão passar amanhã (HOJE) ou já hoje (ONTEM) , neste feriado, folha a folha, os três álbuns com fotografias de mãe Antonieta. Na sala de visitas da minha casa, há uma reprodução em porcelana de um momento em que ela desce de um ônibus em Madri.

Amanhã (HOJE) à tarde serão passados dez anos. A ficha nunca caiu. Mãe Antonieta continua a preencher pulsações do meu serestar, conflitos, criações, dúvidas, pensamentos, conversas, sonhos. O cheiro de mãe Antonieta permanece registrado por meu olfato. Muitas vezes, quando apago a última luz, antes de dormir, sinto uma presença grande, invisível e amorosa, ocupando toda a casa por mim herdada.

Passados os dez anos, consolido o meu entendimento de que a vida é a morte e a morte é a vida. Ou seja: uma única linha reta e curva, que consegue ser paralela a si própria. Isto me faz sorrir com serenidade e chorar com discrição. Porto-me com a sexagenária maturidade de quem já viu muitos partirem (parentes e amigos) e com a adolescência que me faz crer em anos suficientes para produzir algo de melhor.

Em tempo: amanhã (HOJE) , às 5 da tarde, na Igreja de Santa Júlia, a missa pelos dez anos.   

 

 @ CARLOS ARANHA é jornalista e escritor

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