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AOS SERTANEJOS

by Lobodomar

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AOS SERTANEJOS
(André L. Soares)
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Cidade grande é uma ‘belezura’,
com muita obra de envergadura,
tudo lindo, luxento e formoso,
gente correndo que nem formiga,
comendo horrores, criando barriga,
num vai-e-vem supimpa e vigoroso.
Milhões de carros em movimento,
tanto prédio, tanto apartamento,
luzes, vidro, asfalto, cor, cimento,
chegando mesmo a ser assombroso.

Mas nisso tudo há muita tristeza…
gente vivendo em meio à safadeza,
desfrutando do fruto afanado,
homem a explorar um outro homem,
tantos querendo matar a fome,
tanta comida em supermercados.
Tanta gente a se exibir no terno,
com soberba em nível sem igual,
o povo humilde só a passar mal,
a justiça vive em bacanal,
já se tornou a matriz do inferno.

A miséria cresce e se esparrama,
ladrão rico monta e deita cama,
a lei é dura só pra pobretões.
Os alimentos são ruins e caros,
amores são cada vez mais raros,
nas leis mortas, pairam transgressões.
A escola é vil, suja e decadente,
hospitais não curam os doentes,
aumenta só a massa dos carentes,
superlotam-se todas as prisões.

Já na roça o mundo é mais quieto.
Povo aqui não é metido a ‘esperto’.
O caipira é até meio ‘desletrado’,
ganhando a vida sobre o torrão,
arranca um milagre com a mão,
na terra, no boi, no rio e no arado.
É sob o sol que esse povo trabalha,
com foice, enxada, faca e navalha,
tomando pinga e pitando a palha,
corpo há muito tempo calejado.

O tabaréu fala tudo errado,
com os verbo assim, mal colocado,
sem entender metade dos nome.
Porém, não vive só de fantasia…
se amanhã nós te ‘dizê’ ‘– bom dia’,
em nossa casa’ocê dorme e come.
Se ‘bestá’, você vira até parente.
‘Desagradô’, nós diz na tua frente.
‘Home’ do campo é capiau valente…
nós não vive em meio à hipocrisia.

Galo ‘cantô’, nós já ‘estamo’ em pé.
Nossa Senhora tem a nossa fé,
nela buscamos a redenção.
Na procissão tem santo no andor,
nas famílias sobra mais amor,
modismo aqui nem existe não.
Não se é escravo do tal de cinema,
Então nós prefere é as ‘muié’ morena,
nós quer rezar os terço e as novena,
e tocar viola ao luar do sertão.

Mas o caboclo, não é irresponsável.
Nossa labuta, é assaz louvável.
Nós que forjamos a produção,
na roça é que o trigo é semeado,
no pasto é que o novilho é criado,
colhe-se o milho, o arroz e o feijão.
A verdade se apresenta pura…
século após século de bravura,
nós na lida com a agricultura,
desenvolvendo a nossa nação.

Desde a data do descobrimento,
desde o nosso primeiro momento,
planta-se aqui o que essa terra der.
Luta ardente, silente vitória…
ciclo após ciclo em nossa história,
cana-de-açúcar, gado e café,
milho, cacau, soja e algodão,…
uns vivendo’inda na escravidão,
de paga a ‘pê-eme’, de arma na mão
e o sertanejo, forte,… de pé.

Por isso, respeite os homens do campo
e não nos deixe, assim pelos cantos,
sem terra para ‘plantá’ e ‘vivê’.
Nós não morremos pobres bóia-fria
para essa corja podre de Brasília
se ‘amostrá’ às nossas custas na ‘tevê’;
rindo-se à toa do PIB elevado,
mas deixando ali, sempre de lado,
o câncer impune do Eldorado,
ferida aberta no ‘eme-esse-tê’.

Então’ocê, rico barão togado,
professor, médico, ‘adevogado’,
medalhas, pompas pra mais de mil…
quando for sentar-se à santa ceia,
na dispensa farta, sempre cheia,
de fruta, legume, pão e pernil,
saiba que aqui sempre foi o matuto,
jeca, roceiro, leal, roto e bruto,
o honrado e sábio, homem astuto,
que com seu suor, sustenta e alimenta
esse gigante chamado ‘Brasil’.
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