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Estou sangrando sem morrer

by anonymous

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Opinião

CARLOS ARANHA

 

caranha@terra.com.br

 

Publicado no "Correio da Paraíba",

edição de 12 de janeiro de 2013

 

‘TÁ TUDO BEM, MÃE

 

Minh'alma pede complacência ao mundo que faz sangrar meu coração envelhecido pela ex-inocência. Ah, minha doce mãe que não mais vejo, as mãos de teu menino só brincam de passado,
destruíram todos os brinquedos.

Perdoei meu pai porque, apesar de enrijecido, meu coração intolerâncias não comporta.

Fui violentado ao descobrir meu sexo e desde lá, tão longe, masturbo inexistentes inocências. Minhas ereções são os gritos saídos de minh'alma presa a um inadequado corpo pesado.

Oh, mãe, repito e reverbero o poeta enquanto fantasmas se multiplicam em noites solitárias: "Deus, oh, Deus, onde estás que não respondes?"

Mãe, estou sangrando sem morrer. Quando sair daqui, será que beijarei tua face?

Depois do ainda limpo e verde mar de Tambaú, quando não havia Avenida Senador Ruy Carneiro, mas Avenida Atlântica... Por que a Câmara Municipal e os sucessivos prefeitos da João Pessoa depois dos anos 60 do século passado são tão pródigos em colocarem nomes de gente em nossas praças, ruas, parques, avenidas?... Vejam que no Recife bem pouco assim fizeram. Trocaram a Atlântica por Ruy Carneiro, a Nova por General Osório, a Direita por Duque de Caxias, a 24 de Maio por Prefeito Osvaldo Pessoa, a Palmeiras por Rodrigues de Aquino, e por assim foram através dos anos. Houve uma data marcada: começou na ditadura militar. Quando aquela caiu, os civis tomaram gosto pelo hábito. Esses mesmo civis não retiraram de conjuntos habitacionais os nomes dos ditadores Castello Branco, Ernesto Geisel, Garrastazu Médici e ainda batizaram um deles com o nome da mãe de um general-presidente (o João Baptista). É o Valentina Figueiredo.

Mãe, agora que não moro mais no litoral, na Atlântica, 107, e me fiz poeta porque a senhora me ensinou a ler corretamente, em pleno calor recebo muito vento pela janela do meu quarto. Vem da Mata Atlântica e estou no lado pacato de Cruz das Armas, pois nunca serei um “novo rico”. Estou sangrando, sim, como na música de Bob Dylan (“It’s alright, Ma”). Mas, não vou morrer tão cedo. Muito te amo.

 

@ CARLOS ARANHA é jornalista e escritor

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